POCUS segundo a SBC: quem deve fazer, como treinar e o que o hospital precisa garantir
O novo posicionamento da SBC desloca a discussão sobre POCUS: mais do que saber se o método funciona, é preciso definir quem deve realizar, como treinar e quais condições o serviço precisa garantir.

Por Dra. Verônica Monteiro — Cardiologista e Intensivista (AMIB) • Gerente de Cardiologia do Real Hospital Português • Coord. da UTI de Transplante e Cirurgia Cardíaca do IMIP
Revisão médica: Dr. José de Andrade
Entenda o que o posicionamento da SBC propõe para treinamento, competência, manutenção da prática e implantação institucional segura do POCUS.
A pergunta que realmente importa
Durante muito tempo, a principal pergunta era: POCUS funciona? O posicionamento da SBC praticamente parte da premissa de que sim. Ao longo do texto, o documento descreve aplicações clínicas em diferentes contextos da medicina cardiovascular, reforçando o papel do ultrassom à beira do leito como ferramenta útil para apoiar decisões. Mas o aspecto mais consequente do posicionamento talvez esteja antes mesmo das aplicações. A pergunta que passa a importar não é mais se o médico gosta ou acredita no método. A pergunta é: o serviço reúne as condições mínimas para que o POCUS seja realizado com segurança? Essa não é uma questão teórica. Ela envolve treinamento supervisionado, critérios de competência, volume de exames, infraestrutura, documentação, supervisão e integração institucional. Em outras palavras: a primeira pergunta se responde com literatura; a segunda se responde com organização real do serviço.
Ponto-chave
O posicionamento da SBC não é apenas um aval ao método. Ele é um chamado para profissionalizar sua implementação.
O que é POCUS, afinal?
Segundo o posicionamento, o POCUS é o uso da ultrassonografia como método auxiliar ao exame clínico, focado em responder perguntas clínicas específicas à beira do leito. Essa definição é importante porque delimita o escopo do método. O POCUS não é um ecocardiograma completo simplificado. Ele também não deve ser visto como substituto de um exame diagnóstico formal quando este está indicado. A lógica do POCUS é outra: trata-se de um exame focado, orientado por uma pergunta clínica bem definida e integrado ao contexto assistencial imediato.
- Há derrame pericárdico?
- Há sinais de congestão pulmonar?
- A função ventricular parece gravemente comprometida?
- Existe congestão venosa relevante?
- Há elementos ultrassonográficos que apoiem ou afastem um determinado diagnóstico à beira do leito?
Quando a pergunta clínica extrapola esse escopo, a decisão correta não é “forçar” o POCUS a responder além do que ele pode. Nessa situação, o caminho adequado é solicitar o exame diagnóstico completo. Esse é um ponto de maturidade técnica: saber quando o POCUS ajuda, e saber quando ele já não é suficiente.

Quem deve realizar POCUS segundo o posicionamento?
O documento é mais criterioso do que o discurso informal que às vezes circula nos serviços. A ideia central não é simplesmente “qualquer médico pode fazer”. O texto aponta como aptos os médicos cardiologistas, intensivistas, pediatras ou emergencistas devidamente treinados. Aqui há duas mensagens importantes. A primeira é que a especialidade, por si só, não basta. O profissional não se torna competente apenas por pertencer a uma área próxima da prática. O posicionamento vincula a aptidão ao treinamento formal, à prática supervisionada e à demonstração objetiva de competência. A segunda é que, especialmente em cenários mais sensíveis — como pediatria — o reconhecimento dos limites do método é parte essencial da prática segura. Alterações sugestivas de cardiopatia estrutural complexa, por exemplo, devem levar à complementação com exame especializado. Além disso, o posicionamento trata o POCUS como ato médico, o que significa que o profissional responde pela indicação, pela execução técnica, pela interpretação dos achados e pelo registro adequado em prontuário.
Competência não é curso: é processo
Talvez a maior contribuição prática do documento seja a tentativa de estruturar a competência de forma mais objetiva. Em vez de adjetivos vagos, o texto propõe um modelo de treinamento progressivo, com requisitos mínimos de prática e etapas claras. O protocolo proposto, chamado AcQUIRE, organiza a formação em níveis com exigências crescentes:
- Nível 1: 30 exames mínimos em 2 semanas
- Nível 2: 50 exames mínimos em 4 semanas
- Nível 3: 70 exames mínimos em 12 semanas

1. Curso introdutório
Com componente teórico e prática hands-on inicial, abordando fundamentos, uso do aparelho, aquisição de imagem e protocolos.
2. Treinamento supervisionado
Aqui está o centro da formação real. O médico passa a realizar exames em cenários concretos, com supervisão de profissional habilitado. O documento valoriza inclusive a exposição a casos patológicos, e não apenas a modelos normais.
3. Avaliação formal da competência
A competência precisa ser testada. O texto propõe checklist, nota mínima e reavaliação quando necessário.
4. Revalidação e manutenção
Esse talvez seja o ponto mais importante: o documento não trata competência como algo que se adquire uma única vez. Ela precisa ser mantida ao longo do tempo.
Ponto-chave
Fazer um curso introdutório não equivale a estar plenamente habilitado. O curso é apenas a porta de entrada. Competência, em POCUS, é algo que se constrói, se demonstra e se mantém.
O número que muda a conversa
Entre todos os números do posicionamento, o mais transformador para os serviços talvez não seja 30, 50 ou 70. É a recomendação de mínimo de 10 exames por mês para manutenção da competência. Esse detalhe muda completamente o raciocínio. Os exames iniciais representam um custo de entrada: são finitos, planejáveis, executáveis em um período delimitado. Já a manutenção de competência é um compromisso contínuo.
- volume assistencial compatível;
- rotina de educação continuada;
- discussão de casos;
- comparação de achados com exames completos quando apropriado;
- monitoramento da qualidade.
Ou seja: POCUS não é apenas treinamento; é programa institucional. Essa talvez seja a pergunta mais importante para um gestor: meu serviço consegue sustentar um programa de POCUS com volume, supervisão, documentação e revisão contínua de qualidade? Se a resposta for sim, faz sentido avançar de forma estruturada. Se a resposta for não, talvez o serviço ainda esteja na fase de construção — e isso não é um problema, desde que haja clareza sobre esse estágio.
O médico responde pela prática. A instituição precisa garantir as condições
O posicionamento deixa claro que a responsabilidade profissional recai sobre quem realiza o exame. O médico responde por sua indicação, por sua execução e por sua interpretação. Mas a prática segura do POCUS depende de elementos que, muitas vezes, estão fora do controle individual do operador.
- equipamento adequado;
- transdutores apropriados;
- recursos de Doppler;
- possibilidade de armazenar imagens;
- integração com prontuário e sistemas de imagem;
- disponibilidade de supervisão;
- protocolos institucionais claros;
- volume mínimo de casos;
- ambiente de formação.
Por isso, a leitura mais madura não é “o médico responde sozinho e o resto é acessório”. A leitura correta é: o médico responde pela sua prática; a instituição precisa garantir as condições para que essa prática seja segura. Quando não existem protocolos institucionais, o problema não é apenas organizacional. O profissional fica sem uma referência formal clara sobre escopo, documentação, limites de atuação, necessidade de supervisão e critérios de encaminhamento para exames completos. Assim, a implantação do POCUS não deveria depender apenas da boa vontade ou do entusiasmo individual de médicos interessados no método. Ela precisa ser tratada como projeto assistencial institucional.
O que o próprio documento reconhece que ainda falta
1. Sustentabilidade financeira
O documento chama atenção para a ausência de políticas claras de reembolso em muitos contextos, tanto no sistema suplementar quanto no sistema público. Isso limita a sustentabilidade de programas mais robustos.
2. Regulamentação mais ampla
O texto também aponta a importância de maior clareza regulatória quanto ao escopo da prática, aos requisitos de capacitação e à relação entre POCUS e exames diagnósticos completos.
3. Formação ainda heterogênea
Talvez este seja um dos pontos mais sensíveis. O ensino de POCUS ainda não está inserido de maneira homogênea na graduação e na residência médica no Brasil. Como consequência, muitos profissionais dependem de cursos extracurriculares, com qualidade variável. Essa constatação é particularmente relevante para quem ensina. Ela mostra que o desafio não é apenas ofertar cursos, mas construir trajetórias formativas consistentes, aplicáveis e responsáveis.
O que isso significa na prática para o seu serviço
Caso: aplicando no seu serviço
Imagine um hospital que compra aparelhos portáteis, promove um curso de dois dias para a equipe e considera o POCUS implantado. À primeira vista, isso pode parecer suficiente. Na prática, não é. Sem supervisão estruturada, sem critérios de avaliação, sem revalidação, sem protocolo institucional, sem registro adequado das imagens e sem manutenção longitudinal da competência, o serviço pode até ter introduzido o tema — mas ainda não implantou um programa maduro de POCUS. E isso importa porque o risco não está apenas em “não fazer o ideal”. O risco está em criar uma falsa sensação de segurança: médicos convencidos de que estão plenamente aptos, serviços convencidos de que já implementaram o método, e pacientes expostos a decisões baseadas em prática insuficientemente estruturada.
A mensagem do posicionamento não é elitista nem proibitiva. Ela é organizadora: POCUS agrega muito valor, mas precisa ser tratado com a seriedade que seu impacto clínico exige.
Checklist: seu serviço está pronto para sustentar POCUS?
- Existe protocolo institucional definindo indicações, limites e fluxos?
- Há supervisão disponível para formação prática?
- O volume de pacientes permite manutenção real de competência?
- Os equipamentos são adequados para a proposta assistencial?
- As imagens podem ser armazenadas e documentadas?
- Existe forma de avaliar competência de modo padronizado?
- Há reavaliação periódica dos operadores?
- O serviço compara, quando apropriado, os achados do POCUS com exames completos?
- Existe clareza sobre quando o POCUS basta e quando ele precisa ser complementado?
- A instituição reconhece o POCUS como programa assistencial, e não apenas como curso?

Se várias respostas forem “não”, isso não significa que o serviço não deva começar. Significa apenas que ele ainda está na fase de estruturação — e precisa ter clareza sobre isso.
Armadilhas comuns ao interpretar o posicionamento
- Ler o documento como liberação ampla e irrestrita. O posicionamento apoia a prática, mas a condiciona a treinamento, competência e estrutura.
- Confundir curso com habilitação plena. O curso introdutório é importante, mas está longe de esgotar a formação necessária.
- Tratar a certificação como evento isolado. A lógica proposta é de manutenção, revalidação e prática continuada.
- Usar POCUS como substituto de exame completo. O método é focado e complementar à avaliação clínica. Não deve ocupar o lugar de exames diagnósticos formais quando estes são necessários.
- Ignorar o papel da instituição. Não basta cobrar desempenho do médico sem criar as condições adequadas para que ele desenvolva e mantenha competência.
Resumo em 30 segundos
O posicionamento da SBC sobre POCUS ajuda a amadurecer a discussão no Brasil. Mais do que confirmar o valor clínico do método, ele organiza a conversa sobre quem deve fazer, como deve treinar e em que condições a prática pode ser sustentada com segurança. A mensagem central é clara: POCUS não é improviso, nem extensão automática de um curso curto. É prática clínica focada, com grande utilidade assistencial, que exige formação estruturada, reconhecimento de limites e suporte institucional. Para o médico, isso significa responsabilidade técnica. Para o hospital, significa compromisso com estrutura e governança. Para quem ensina, significa a oportunidade — e a obrigação — de formar com profundidade, aplicabilidade e responsabilidade.
Referências
- Alcantara ML, Bernardo MPL, Beck ALS, Santos SN, Morhy SS, Lira E, et al. Posicionamento sobre o Uso do Ultrassom “Point of Care” (POCUS) na Medicina Cardiovascular – 2026. Arq Bras Cardiol. 2026;123(4):e20260222. doi:10.36660/abc.20260222.